A nutrição moderna já ultrapassou o conceito de “nutrientes básicos”. Compostos bioativos presentes em alimentos e suplementos (por exemplo, cafeína, polifenóis e ômega-3) podem modular vias ligadas a metabolismo, inflamação e desempenho. Ainda assim, a resposta clínica não é igual para todos.
Um dos fatores que ajuda a explicar essa variabilidade é a genética: variantes em genes relacionados a metabolização, transporte, sinalização e inflamação podem alterar a intensidade (e, em alguns casos, a tolerabilidade) do efeito observado. Esse raciocínio está alinhado ao campo mais amplo da nutrigenética/nutrigenômica, que estuda como componentes da dieta interagem com diferenças genéticas entre indivíduos. PMC
O que é farmacodinâmica nutricional, na prática?
Aqui, “farmacodinâmica nutricional” pode ser entendida como o estudo de como o organismo responde biologicamente a compostos alimentares e como essa resposta varia conforme fatores individuais (incluindo genética). Na prática clínica, isso ajuda a organizar quatro perguntas:
- O composto bioativo chega ao alvo em quantidade relevante (absorção e metabolização)?
- Ele ativa (ou inibe) vias metabólicas/receptores de forma diferente entre pessoas?
- A resposta inflamatória/oxidativa do indivíduo muda a leitura clínica do efeito?
- A dose e o horário “certos” para um paciente podem ser inadequados para outro?
A seguir, três exemplos bem conhecidos para ilustrar o raciocínio.
1) Cafeína: estímulo ou efeito adverso?
Genes frequentemente discutidos: CYP1A2 e COMT
CYP1A2 participa do metabolismo hepático da cafeína, e certos polimorfismos são amplamente estudados em relação a diferenças na resposta à cafeína (incluindo desfechos como desempenho cognitivo e respostas fisiológicas). PMC+2ScienceDirect+2
COMT está associado à atividade da catecol-O-metiltransferase, enzima envolvida no metabolismo de catecolaminas; há estudos avaliando associação entre o polimorfismo de rs4680 e efeitos subjetivos/respostas em contextos envolvendo cafeína e privação de sono. SAGE Journals+1
Aplicação clínica (comportamental e prescritiva)
Em vez de “cortar cafeína para todo mundo”, a estratégia pode ser:
- Ajustar dose e janela de consumo (principalmente em quem relata insônia, palpitação, ansiedade ou piora de recuperação).
- Considerar o contexto: consumo habitual, treino, sono e comorbidades modulam a resposta (independentemente do genótipo). ScienceDirect
Leitura complementar no Blog DGLab:
- O Gene CYP1A2 e a sua relação com a Cafeína. dglab.com.br
2) Polifenóis: benefícios potenciais, resposta variável
Polifenóis (presentes em frutas, vegetais, chás, cacau, café e outros) são investigados por efeitos antioxidantes/anti-inflamatórios. Porém, a experiência clínica pode variar conforme dose, matriz alimentar, microbiota, uso de medicamentos e vias de biotransformação.
Genes GST e o metabolismo redox
Genes da família GST (glutationa S-transferases) participam de processos de conjugação e defesa contra estresse oxidativo. Em ensaios e estudos de intervenção com compostos dietéticos específicos (por exemplo, isotiocianatos como sulforafano, presentes em crucíferas), o status GSTM1 (incluindo genótipo “null”) foi associado a diferenças de excreção/metabolismo desses compostos. PMC
O polimorfismo GSTP1 rs1695 é um exemplo de variante com evidência funcional de alteração de atividade enzimática, discutida em literatura biomédica. PMC+1
Onde entra MTHFR (sem prometer “efeito em polifenóis”)
MTHFR é central no metabolismo do folato e na disponibilidade de grupos metil, com impacto em processos de metilação e biomarcadores como homocisteína; a literatura discute associação de rs1801133 com desfechos cardiometabólicos e relações com padrões de metilação em contextos específicos. PMC
Separadamente, revisões discutem que compostos bioativos (incluindo polifenóis) podem modular mecanismos epigenéticos (metilação/histonas). PMC
O ponto prático é: “metilação” e “resposta a bioativos” são temas relacionados, mas não devem ser tratados como equivalentes.
Leitura complementar no Blog DGLab:
- Polifenóis: o que são, quais os tipos, e onde encontrar? dglab.com.br
- Compostos Bioativos e Nutrigenética: Qual a relação? dglab.com.br
3) Ômega-3: efeito anti-inflamatório e cardiometabólico com amplitude variável
EPA e DHA são investigados por possíveis efeitos em triglicerídeos, inflamação e risco cardiometabólico, mas a magnitude da resposta pode variar. Revisões e meta-análises (incluindo análises guarda-chuva) relatam reduções médias em marcadores inflamatórios como CRP, TNF-α e IL-6 em diferentes populações e contextos. PubMed+1
Gene PPARG e as vias inflamatórias
Há estudos de intervenção e replicação de interações gene-nutriente envolvendo PPARG e ômega-3 em desfechos lipídicos. PMC+1
Também existe literatura explorando como ômega-3 se relaciona com expressão gênica/epigenética e variabilidade individual em vias como IL6. PMC
Leitura complementar no Blog DGLab:
- Gene FADS1 e o consumo de Ômega-3. dglab.com.br
Quando o “natural” não é sinônimo de “ideal”
Um erro comum é assumir que, por ser natural, um composto será benéfico e bem tolerado em qualquer pessoa, em qualquer dose. A prática clínica costuma mostrar o contrário:
- A resposta depende de dose, frequência, horário, matriz alimentar, sono, treino e comorbidades.
- Efeitos adversos podem ocorrer por excesso, combinação inadequada, ou sensibilidade individual.
Ausência de resposta não significa “falha do paciente”; pode refletir variabilidade biológica.
Como aplicar na prática clínica (sem aumentar tentativa e erro)
- Padronize o objetivo do bioativo (ex.: foco/alerta, sono, dor muscular tardia, triglicerídeos, sintomas gastrointestinais).
- Faça um “baseline” antes de mudar tudo (sintomas, sono, pressão, frequência cardíaca, exames pertinentes).
- Ajuste dose e timing por etapas (principalmente para cafeína e polifenóis concentrados).
- Se usar genética, use como ferramenta de refinamento: ajuda a justificar escolhas e a organizar o acompanhamento, não a substituir avaliação clínica.
Sugestão de Leitura Complementar no Blog DGLab
O Gene CYP1A2 e a sua relação com a Cafeína.
Compostos Bioativos e Nutrigenética: Qual a relação?
Polifenóis: o que são, quais os tipos, e onde encontrar?
Gene FADS1 e o consumo de Ômega-3.
Saiba mais em: www.dglab.com.br
Conclusão
Cafeína, polifenóis e ômega-3 podem ser ferramentas úteis na estratégia nutricional, mas a resposta é variável.
A genética entra como uma camada adicional de precisão: ajuda o nutricionista a entender por que pacientes diferentes reagem de formas diferentes e a desenhar intervenções mais seguras, monitoráveis e individualizadas, especialmente quando há necessidade de otimizar dose, timing e expectativa de resposta.

