O papel da genética no foco, sono e recuperação

A cafeína é um dos ergogênicos mais utilizados no mundo, presente em café, chás, bebidas energéticas, pré-treinos e diversos suplementos voltados à performance física e cognitiva. Seus efeitos sobre atenção, disposição e rendimento são amplamente descritos na literatura científica. (ScienceDirect)

Na prática clínica e esportiva, porém, um ponto permanece desafiador: a mesma dose de cafeína pode melhorar muito o desempenho de alguns indivíduos e, em outros, desencadear insônia, ansiedade, piora da recuperação muscular e aumento do estresse fisiológico. (Liebert Publishing)

Esse contraste não é aleatório. Uma parte importante dessa variabilidade é explicada por diferenças genéticas, em especial em genes envolvidos na metabolização da cafeína e na regulação do sistema nervoso e do ritmo biológico, como CYP1A2, COMT e CLOCK. (Liebert Publishing)


Como a cafeína age no sistema nervoso?

A cafeína atua, principalmente, como antagonista de receptores de adenosina no sistema nervoso central. Ao bloquear esses receptores, ela:(ScienceDirect)

  • reduz a sensação subjetiva de fadiga;
  • aumenta o estado de alerta e o tempo de reação;
  • modula vias dopaminérgicas e de outras catecolaminas (adrenalina e noradrenalina);
  • pode elevar o tônus simpático, sobretudo em doses mais altas.

Na prática, esses efeitos podem ser benéficos em contextos de treino, competição ou tarefas cognitivas exigentes, desde que o organismo consiga metabolizar a cafeína de forma adequada e que o sistema nervoso tolere esse estímulo sem entrar em sobrecarga.

É justamente aqui que entram os genes CYP1A2, COMT e CLOCK.


CYP1A2: quem metaboliza rápido, quem metaboliza devagar

O gene CYP1A2 codifica a principal enzima hepática responsável pela metabolização da cafeína. Estudos mostram que o CYP1A2 é responsável por cerca de 90% do metabolismo da substância, e que variantes do gene influenciam a atividade enzimática, dividindo a população em perfis de metabolização mais rápida ou mais lenta.(Nature)

Metabolizadores mais rápidos (alta atividade de CYP1A2)

Em indivíduos com genótipos associados a atividade aumentada do CYP1A2, a cafeína tende a ser eliminada mais rapidamente, o que, em muitos casos, se associa a:

  • melhor resposta ergogênica (atenção, desempenho físico, tempo de reação) com doses moderadas;
  • menor impacto sobre o sono quando o consumo é feito em horários adequados;
  • maior probabilidade de tolerar doses usuais sem sintomas importantes de ansiedade ou taquicardia.(ScienceDirect)

Metabolizadores mais lentos (baixa atividade de CYP1A2)

Em portadores de variantes associadas a menor atividade do CYP1A2, a cafeína permanece circulando por mais tempo, com maior exposição dos tecidos ao estímulo.(Springer)

Clinicamente, isso pode ser traduzido como:

  • maior risco de insônia e fragmentação do sono, mesmo com doses moderadas;
  • sintomas de ansiedade, palpitações e desconforto com quantidades consideradas “normais”;
  • piora da recuperação física e mental quando o consumo ocorre no período da tarde ou à noite;
  • possível redução do desempenho global em esportes, sobretudo em esforços de endurance ou provas longas, em que o estresse fisiológico adicional não compensa o efeito estimulante.(Liebert Publishing)

COMT: sensibilidade ao estímulo e resposta ao estresse

Enquanto o CYP1A2 regula por quanto tempo a cafeína permanece ativa, o gene COMT (catecol-O-metiltransferase) influencia como o cérebro e o sistema de estresse respondem ao estímulo.

O gene COMT codifica uma enzima envolvida na degradação de catecolaminas, como dopamina, adrenalina e noradrenalina. Variantes nesse gene estão associadas a diferenças na atividade enzimática e na sensibilidade a desafios estressores, incluindo sono restrito e uso de estimulantes.(MDPI)

Em indivíduos com menor atividade da COMT, é esperado:

  • acúmulo mais prolongado de catecolaminas frente a estímulos como cafeína;
  • maior sensibilidade a aumentos de dopamina e noradrenalina;
  • maior propensão a sintomas como ansiedade, irritabilidade, tensão muscular e sensação de “mente acelerada”.

Quando esse perfil genético se combina com consumo frequente de cafeína, sobretudo em contexto de alta demanda cognitiva ou estresse crônico, o efeito estimulante pode ultrapassar o limiar de benefício e se tornar um fator de desgaste mental e emocional em médio prazo.


CLOCK: quando a cafeína interfere no ritmo biológico

O gene CLOCK é um dos principais componentes do sistema circadiano, regulando:

  • o ciclo sono–vigília;
  • a liberação de hormônios ao longo do dia;
  • o metabolismo energético;
  • processos de recuperação e reparo tecidual.

Estudos em humanos mostram que a cafeína consumida no período da noite pode atrasar o início da secreção de melatonina e deslocar o relógio biológico, contribuindo para redução do tempo total de sono e aumento de sono superficial.(PMC)

Indivíduos com variantes em genes do relógio biológico, como CLOCK, que já estão predispostos a um sono mais vulnerável ou a cronotipos específicos, podem ser particularmente sensíveis a esse efeito. Na prática clínica, isso se manifesta como:

  • dificuldade persistente para iniciar o sono mesmo com “higiene do sono” adequada;
  • sensação de sono não reparador;
  • fadiga e queda de performance no dia seguinte, apesar da alta ingestão de café.

Cafeína e recuperação: o efeito que o paciente nem sempre percebe

O impacto da cafeína não se restringe ao período imediatamente após o consumo. Em indivíduos geneticamente mais sensíveis (pela combinação de CYP1A2, COMT e CLOCK), o uso inadequado pode contribuir para:

  • aumento crônico do estresse fisiológico (com possível impacto em cortisol e carga alostática);
  • piora da recuperação muscular e da sensação subjetiva de descanso;
  • redução da qualidade do sono profundo, mesmo quando o tempo total de sono não parece tão reduzido;
  • maior risco de fadiga acumulada e queda progressiva de performance.

(Liebert Publishing)

Esse cenário é especialmente relevante em:

  • atletas de alto rendimento;
  • praticantes de musculação e treinos intensos;
  • profissionais sob alta demanda cognitiva e emocional (plantonistas, gestores, profissionais da saúde em regime de turnos).

Ergogênico ou sabotador? A resposta está no DNA

A mesma substância pode:

  • melhorar significativamente foco, desempenho físico e rendimento cognitivo; ou
  • sabotar sono, recuperação e estabilidade emocional,

Dependendo da combinação entre CYP1A2, COMT, CLOCK, além de fatores como dose, horário, contexto metabólico e rotina de estresse.(Liebert Publishing)

Sem informação genética, a condução do uso de cafeína tende a seguir um modelo de tentativa e erro: ajusta-se a dose “no olho”, tolerando efeitos colaterais até que se tornem evidentes.

Com o apoio de testes genéticos, o profissional de saúde pode:

  • identificar se a cafeína tende a ser mais aliada ou problemática para aquele indivíduo;
  • ajustar dose, horário e frequência de consumo de forma mais precisa;
  • orientar estratégias de substituição (por exemplo, outros ergogênicos, manipulação de sono, treino, alimentação);
  • minimizar efeitos silenciosos sobre sono, recuperação, saúde mental e risco cardiovascular em perfis mais vulneráveis.

Aplicações práticas para profissionais de saúde

Alguns cenários em que a inclusão de testes genéticos com foco em CYP1A2, COMT e CLOCK pode agregar valor à prática clínica e esportiva:

  • Pacientes ou atletas que relatam taquicardia, ansiedade ou insônia com pequenas doses de cafeína.
  • Indivíduos que não percebem ganho de performance com cafeína, mesmo em protocolos clássicos de ergogênicos.
  • Quadros de fadiga crônica, “cansaço não explicado” ou dificuldade de recuperação, em que o consumo de cafeína é alto.
  • Profissionais que trabalham em turnos (plantões noturnos, escalas 12×36, etc.) e utilizam cafeína para se manter acordados, com impacto visível no sono.
  • Planejamento de estratégias ergogênicas de médio e longo prazo, em vez de intervenções pontuais pré-prova.

Nesses contextos, a genética deixa de ser um “dado curioso” e passa a ser um instrumento de decisão terapêutica.


Conclusão: usar cafeína com inteligência biológica

A cafeína não é boa nem ruim por definição. Ela é uma ferramenta potente, cuja eficácia e segurança dependem da interação entre:

  • biologia individual (CYP1A2, COMT, CLOCK e outros genes relacionados);
  • contexto de uso (treino, trabalho, cronotipo, horário);
  • estado global de saúde e sono.

Ao incorporar testes genéticos específicos para cafeína, o profissional de saúde pode:

  • sair do modelo genérico de recomendação (“até X mg/dia para todos”);
  • entender quem se beneficia mais da cafeína como ergogênico;
  • reconhecer quem precisa reduzir, ajustar ou mesmo evitar o uso regular;
  • proteger, ao mesmo tempo, performance, sono, saúde mental e integridade metabólica em longo prazo.

A proposta da DGLab é justamente apoiar profissionais de saúde, nutrição, medicina esportiva e performance na aplicação prática da genética, traduzindo informações de genes como CYP1A2, COMT e CLOCK em decisões clínicas mais seguras, eficazes e personalizadas.


Referências selecionadas

  • Banks NF et al. Genetic Polymorphisms in ADORA2A and CYP1A2 Influence Caffeine’s Effects (Sci Rep, 2019).(Nature)
  • Low JJL et al. Genetic susceptibility to caffeine intake and metabolism (J Transl Med, 2024).(Springer)
  • Southward K et al. The Role of Genetics in Moderating the Inter-Individual Response to Caffeine (Nutrients, 2018).(MDPI)
  • Messenburger GP et al. Influence of the CYP1A2 genotype on the exercise response to caffeine supplementation (2025).(ScienceDirect)
  • Erblang M et al. Genetic Determinants of Neurobehavioral Responses to Caffeine (Genes, 2021).(MDPI)
  • Burke TM et al. Effects of caffeine on the human circadian clock in vivo and in vitro (Sci Transl Med, 2015).(PMC)
  • Reddy VS et al. Pharmacology of caffeine and its effects on the human body (2024).(ScienceDirect)

Sugestão de Leitura Complementar no Blog DGLab

O Gene CYP1A2 e a sua relação com a Cafeína.

Compostos Bioativos e Nutrigenética: Qual a relação?

Polifenóis: o que são, quais os tipos, e onde encontrar?

Gene FADS1 e o consumo de Ômega-3.

Saiba mais em: www.dglab.com.br