A sensibilidade ao álcool está atrelada à forma com que cada pessoa responde à ingestão de bebidas alcoólicas. Por ser uma das substâncias mais consumidas no mundo, poucos se dão conta dos malefícios que ela pode causar à saúde quando o seu uso é desequilibrado.

Vários fatores contribuem para que uma pessoa fique vulnerável aos efeitos alcoólicos, desde o estado nutricional até o estado emocional. E obviamente a genética também exerce seu papel neste cenário. Por isso, estar consciente do estado de saúde é importante para saber até quanto beber. Ainda mais em tempos festivos…

Se você tem interesse em saber mais sobre esse assunto, acompanhe o artigo até o final.

O álcool e seu consumo

A produção de álcool para o consumo humano remete a tempos antigos, e esta continua sendo uma das principais atividades industriais atualmente. Desde a antiguidade, nas épocas “Antes de Cristo” (A.C.), egípcios, gregos, chineses e as civilizações indígenas pré-colombianas já produziam e usavam o álcool. 

Tudo começou com a observação de que a fermentação de grãos (p. ex. arroz) e frutas (p. ex. uva) criava uma substância com evidente efeito psíquico. O preparo do etanol (ou álcool etílico, ou apenas álcool) assim ganhou popularidade e passou a fazer parte de rituais e comemorações. Além disso, as receitas passaram por inovações, resultando em mais opções de bebidas.

Hoje isso não é diferente, já que o álcool é uma das substâncias mais consumidas no mundo, sendo seu efeito no sistema nervoso central bastante conhecido. O problema é que poucas pessoas se atentam ao fato de que tem maior sensibilidade ao álcool. E quando há excesso e constância em seu uso, os efeitos nocivos podem aparecer mais facilmente.

Como tudo aquilo que ingerimos, o abuso (ou consumo excessivo) do álcool leva a desequilíbrios fisiológicos importantes, resultando em condições desfavoráveis à saúde. E isso não é novidade para ninguém. Segundo a Organização Pan Americana da Saúde (OPAS): 

  • anualmente o uso abusivo do álcool causa 3 milhões de mortes (ou 5,3% de todas as mortes no mundo);
  • aproximadamente 13,5% do total de mortes em pessoas entre 20 e 39 anos são devidas ao álcool;
  • mais de 200 doenças são consequência do uso nocivo do álcool.

Sensibilidade ao álcool e seus reflexos na saúde

Os problemas com o consumo de álcool de forma abusiva é que além das doenças (hepatite alcoólica, cirrose e gastrite, para citar as mais conhecidas), geram alterações comportamentais perigosas. As agressões verbais e físicas no trânsito, e principalmente a violência doméstica, são nítidos e frequentes reflexos disso.

Com o passar do tempo, o uso contínuo em quantidades elevadas pode causar dependência, o que leva, mais adiante, a um importante comprometimento cerebral (demência). Isso engrossa a estatística dos quadros psiquiátricos graves, e reforça a necessidade de tratamento.

Um fator a se somar é que a abstinência (ausência do consumo de álcool) também deve ser levada em conta no tratamento, o que onera ainda mais o sistema de saúde. Mas a dependência de álcool não é algo que se estabelece rapidamente, é necessário tempo. 

Porém, ele acaba sendo alento e motivo de consumo em várias situações: desde o uso recreativo para relaxamento frente ao estresse diário, até o inofensivo happy hour.  O álcool tem presença em festas de aniversário, confraternizações do trabalho, encontros de amigos e vários outros eventos.

O inconveniente é que alguns se deixam levar pelo consumo mais intenso das bebidas sem saber que podem estar correndo risco por terem tendência a uma maior sensibilidade ao álcool. Apesar de alguns estudos mostrarem que o álcool consumido em quantidades moderadas pode trazer benefícios ao organismo, não há consenso sobre o número exato de doses a serem consumidas sem expor o organismo a riscos.

Variabilidades genéticas geram sensibilidade ao álcool

Ao ingerirmos bebidas alcoólicas, o nosso organismo responde produzindo enzimas para sua adequada filtragem e eliminação. Entretanto, cada um reage de forma diferente para a mesma quantidade de álcool ingerida. Quem nunca ouviu, no dia seguinte a uma festa, a frase: “não sei nem como cheguei em casa”. E de outro lado: “bebi muito, mas passei muito bem”.

Essas diferenças podem ocorrer por vários fatores: a quantidade de água ingerida junto à bebida alcoólica, a ingestão de alimentos antes e depois de beber, pelo estado de ânimo no momento do consumo de álcool, etc. Mas há também aí um componente biológico, o nosso DNA.  

Por ser a fonte das informações para a produção de enzimas que metabolizam o álcool, certas variações no DNA, que são distintas para cada pessoa, podem afetar diretamente o modo como respondemos a essa substância. Isso acontece porque essas variações geram enzimas com velocidade de processamento diferentes.

Assim, podemos inferir quais os efeitos que o álcool pode causar em nosso corpo. Por exemplo: algumas variações do gene ADH1C, que codifica a enzima hepática Álcool Desidrogenase Classe 1, são responsáveis pela produção da enzima com atividade mais lenta. Enquanto isso, outros tipos de variação nesse gene originam a enzima com atividade mais rápida.

Dizemos que aqueles que portam a variação para enzima de ação rápida, processam mais ligeiramente o álcool, mantendo-o por menos tempo em seu organismo. Do outro lado, os indivíduos que trazem a variação para a produção da versão mais lenta da enzima experimentam por tempo mais prolongado os efeitos alcoólicos. Estes últimos tendem a ter uma maior sensibilidade ao álcool, sendo mais susceptíveis a ele.

Nesse caso, recomenda-se evitar ou diminuir o consumo de álcool. No entanto, o cuidado com o consumo exagerado de  bebidas alcoólicas deve ser levado em consideração por todas as pessoas, sem exceção. Todos sabemos que o excesso de álcool é prejudicial à saúde, e nenhuma genética pode mudar esse fato!