O processo inflamatório é algo que acontece o tempo todo no nosso organismo, quer seja para combater uma infecção, quer seja para curar um ferimento, ou para restaurar a condição física do corpo após uma série de exercícios físicos.

O certo é que a inflamação visa o restabelecimento do nosso organismo para a normalidade da nossa saúde.

Porém, em algumas circunstâncias, a inflamação se torna exacerbada e acaba atrapalhando esse processo. E muitas vezes isso tem relação com a nossa genética. Você sabia disso?

Se não sabia, continue lendo o artigo super-interessante que preparamos sobre o assunto.

O que é o processo inflamatório?

O processo inflamatório é uma resposta natural do corpo a uma lesão tecidual. Quando isso acontece, nossas células de defesa liberam substâncias que atuam tanto no local do tecido lesionado como ao redor da lesão. E é justamente a liberação dessas substâncias que é conhecida como inflamação (ou resposta inflamatória).

A inflamação pode acontecer de duas formas: a aguda e a crônica. Um exemplo corriqueiro de processo inflamatório agudo acontece quando sofremos um corte na pele, que ativa o processo inflamatório para a reparação do tecido lesionado. Tomando esse mesmo exemplo, no caso da inflamação crônica, ela ocorre a partir da ativação do sistema imunológico para a eliminação de infecções que podem acontecer na pele a partir desse mesmo corte.

O que é comum nesses dois tipos de processo é que há a produção de certos tipos de proteínas, chamadas de citocinas. Elas agem formando substâncias relacionadas à condições pró-inflamatórias (aumentando ainda mais a produção de citocina, mantendo o processo inflamatório) ou anti-inflamatórias (reduzindo a produção de citocina, controlando o processo), de acordo com a regulação do organismo.

Como acontece o processo inflamatório?

O processo inflamatório pode ser pode ser desencadeado em diferentes situações, tais como:

  • Exposição a queimaduras;
  • Bactérias e outros microrganismos;
  • Envelhecimento;

Mas também pela realização de exercícios físicos de alta intensidade e baixa aptidão física.

Explicando: quando os músculos realizam movimentos, o alongamento e o encurtamento das fibras musculares produzem citocinas musculares, denominadas de miocinas. Elas contribuem para a recuperação do tecido muscular após um exercício físico ou atividade de trabalho (que requer movimentação física) extenuantes, já que essas atividades causam microlesões musculares.

Nesses casos, o processo inflamatório induz a ativação da interleucina-6 (IL-6), que é liberada para a corrente sanguínea, podendo atuar no organismo como um agente pró-inflamatório ou anti-inflamatório, dependendo do estado de saúde, capacidade física e nutrição de cada pessoa.

No seu papel pró-inflamatório, a IL-6 estimula a produção de células de defesa e de glicoproteínas que participam do combate à lesão muscular. Quando a ação da IL-6 é anti-inflamatória, ela atua inibindo a produção de outras citocinas que causam a inflamação. 

Genética e Processo Inflamatório

Geralmente, a realização de exercícios físicos promove um estresse natural do tecido muscular, que culmina no processo inflamatório. A intensidade da resposta desse processo varia de organismo para organismo, isto é, existe variabilidade inter-individual.

A explicação para as diferenças na produção da inflamação acontece devido a variações genéticas que promovem a produção de mediadores inflamatórios em diferentes quantidades. Algumas variantes genéticas podem alterar a sinalização para a produção da resposta inflamatória, ativando a síntese de citocinas de forma maior ou menor.

Portanto, a genética de cada pessoa irá determinar se haverá uma resposta inflamatória com maior ou com menor intensidade no organismo.

Uma visão prática: você deve conhecer alguma pessoa que possui maior susceptibilidade a ficar doente ou que leva mais tempo para cicatrizar um machucado – isso acontece porque provavelmente essa pessoa possui um processo inflamatório desregulado, o que prejudica o organismo em sua recuperação.

Genética e exercício físico

Ao iniciar um programa de treinamento físico, o tecido muscular necessita de um tempo para se adaptar. Isso porque a realização do exercício gera microlesões no músculo, sendo responsáveis por levar à adaptação ao treinamento físico e à evolução das capacidades físicas tais como força e resistência musculares.

O exercício físico intenso promove maior grau de lesão muscular, gerando um processo inflamatório maior e, consequentemente, um aumento de miocinas e da IL-6. Mas não apenas isso: outras citocinas pró-inflamatórias, como o TNF-A e a proteína C reativa (PCR) também são liberadas após a realização de exercícios físicos em decorrência da produção da IL-6. Ambas atuam no balanço energético do organismo, sendo muito utilizadas como marcadores bioquímicos do processo inflamatório, além de terem uma forte relação com doenças cardiovasculares.

Curiosamente, o treinamento físico regular de longo prazo pode aumentar a capacidade de resposta do sistema anti-inflamatório. Uma das explicações para esse efeito benéfico dos exercícios recai justamente na ação da IL-6. Dentre suas funções estão: a participação no sistema de reparo de lesões musculares, a regulação dos níveis de glicogênio muscular, assim como a participação na hipertrofia muscular (mecanismo anti-inflamatório).

Logo, um dos benefícios do exercício físico está na indução de transformação da IL-6 de ação pró-inflamatória para a ação anti-inflamatória, diminuindo dessa forma a produção do TNF-A e da PCR.

Teste de DNA e sua importância no entendimento do processo inflamatório

O teste de DNA permite conhecer como tendem a ser algumas estruturas corporais (por exemplo, a fibra muscular) e a capacidade de resposta fisiológica (por exemplo, a capacidade de recuperação do organismo).

Um indivíduo pode apresentar maior proporção de fibras do tipo I (contração lenta) ou do tipo II (contração rápida) ou proporções similares dos tipos de fibras. A compreensão sobre o tipo de fibra permite saber a capacidade de força que o músculo é capaz de gerar e por quanto tempo será possível manter o esforço físico.

Por exemplo, a fibra de contração lenta possui menor capacidade de gerar força o que pode levar a um maior esforço (alta intensidade) estimulando a produção das citocinas. O profissional de educação física, ao ter esse conhecimento, pode ajustar o treino para obter uma intensidade adequada para este indivíduo.

Esta preocupação no ajuste da intensidade de esforço deve ser levada em conta para não causar um estresse além do normal no organismo, minimizando a ocorrência da inflamação. O ajuste da intensidade também irá auxiliar na redução da dor muscular tardia, principalmente nos iniciantes do exercício físico regular.

Já em relação à capacidade de recuperação do organismo, o teste de DNA permite conhecer o balanço das respostas pró e anti-inflamatórias, resultando numa melhor avaliação do processo de reabilitação dos tecidos musculares devido às microlesões geradas pelo exercício.

Assim, a vantagem de se conhecer o potencial de recuperação de um indivíduo reside na determinação do tempo ideal de descanso entre sessões de treinamento de alta intensidade, resultando em uma maior eficiência na obtenção de desempenho.

Nutrigenética e o processo inflamatório

Pensando no processo inflamatório com relação à prática de exercícios, o profissional de educação física também pode se beneficiar quando obtém informações genéticas de seus pacientes ou alunos.

Isso porque podemos encontrar variações genéticas nos genes TNF-A e IL-6, cujos genótipos de risco estão associados com o aumento dos níveis dessas duas citocinas, sendo um fator que colabora para o desenvolvimento de doenças, dificuldades para perda de peso e prejudica a recuperação muscular.

Felizmente, quando identificamos esses perfis genéticos, podemos trabalhar com alimentos e suplementação de alguns compostos de ação anti-inflamatória, que podem contribuir e amenizar esse processo.

Mas atenção: é importante evitar o excesso da ingestão de suplementos anti-inflamatórios, principalmente logo após o treino, pois isso pode prejudicar o processo de adaptação muscular natural do nosso organismo que é importante para a realização de exercícios.

Alguns exemplos de compostos presentes em alimentos, com ação anti-inflamatória são as fontes de curcumina (cúrcuma ou açafrão da terra), as catequinas (chá verde), o licopeno (tomate, melancia, goiaba) e o gingerol (gengibre). Além disso, os ácidos graxos ômega-3 também entram como um importante elemento, podendo ser encontrado em algumas fontes alimentares, como peixes, sementes de chia e linhaça, por exemplo.

Testes genéticos, exercícios físicos e nutrição

Tanto as pessoas que buscam melhorar sua saúde e qualidade de vida a partir da prática de exercícios físicos quanto pela orientação nutricional poderão obter resultados positivos seguindo as orientações de profissionais que recomendam o teste de DNA. E isso porque muitas características podem ser inferidas a partir dos resultados desse teste.

No caso dos treinos físicos, a intensidade de exercício deverá estar de acordo com a proporção das fibras musculares de cada pessoa. Ou seja, quando há predominância de fibras de contração lenta, a intensidade de esforço deverá ser menor, com a atividade sendo realizada por um intervalo de tempo maior.

Porém, se esse mesmo indivíduo realizar uma sessão intensa, deve-se observar o seu perfil de capacidade de recuperação para inferir o tempo necessário de descanso e quais alimentos poderão ser consumidos para ajudar nesse processo.

Por outro lado, para o indivíduo que possui maior proporção de fibras de contração rápida, a quantidade de exercícios de alta intensidade poderá ser maior. Neste caso, também é preciso observar a capacidade de recuperação pós-treino para evitar desgastes desnecessários do organismo, e ter a recomendação da alimentação mais adequada para isso. 

A recuperação ocorre pelo intervalo de tempo entre uma sessão e outra de treinamento físico, e também está diretamente relacionada à ingestão de alimentos que auxiliam na reposição dos estoques de energia e na síntese proteica muscular (como carboidratos, proteínas) e, claro, à ingestão de líquidos para repor o que foi perdido durante os exercícios.

A prática de atividades físicas possui forte associação com o processo inflamatório e a genética fornece as informações úteis para o gerenciamento personalizado das sessões de treinos bem como a nutrição, pois considera a constituição física e fisiológica de cada indivíduo. 

Dessa forma, a estruturação do exercício físico com a recuperação, feita com base em critérios na individualidade, permite melhorias das capacidades físicas uma vez que considera a melhor forma de se exercitar e se alimentar. 

Referências

Cerqueira et al. Inflammatory effects of high and moderate intensity exercise – A systematic review. Frontiers in Physiology, 2020.

Hall. Tratado de fisiologia médica. 12 ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011.

Oliveira et al. Citocinas e Dor. Revista Brasileira de Anestesiologia, 2011.

Pires. Efeitos do treinamento físico sobre a cinética das concentrações séricas dos componentes do complexo ternário do IGF-I e citocinas (TNF-alfa, IL-6, IL-10) em nadadores adolescentes. Dissertação (Mestrado em Ciências) – Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, 2017.

Power. Fisiologia do exercício: teoria e aplicação ao condicionamento e ao desempenho. 8 ed. Barueri: Manole, 2014.

Ruiz. The -174 G/C polymorphism of the IL6 gene is associated with elite power performance. Journal of Science and Medicine in Sports, 2010.

Prof. Tiago Marques de Rezende
Doutor em Educação Física – UNICAMP
Mestre em Ciências da Motricidade – UNESP/RC
Professor Adjunto Educação Física – UNIFEG
Experiência em avaliação genética e seus efeitos no exercício
físico, prescrição de exercício físico
para grupos especiais e treinamento de equipes esportivas.