A genética é um importante campo das ciências que permite ampla versatilidade quanto às suas aplicações clínicas. Atualmente, o setor de nutrição tem se utilizado bastante dos testes genéticos como um instrumento complementar em sua abordagem com os pacientes.

A nutrigenética vem crescendo nas últimas décadas como uma área que já deixou de ser teórica e promissora, e hoje traz para a realidade, no aspecto prático, uma forma de tornar a conduta nutricional mais assertiva.

Este artigo traz uma entrevista rápida, mas bastante informativa, com a nutri Letícia Falquetti. Ela é parceira da DGLab desde 2020, tem se especializado em genética, e veio aqui compartilhar sua experiência na prescrição alimentar baseada nos exames de DNA.

1 – Como os testes genéticos facilitam a prescrição de suplementos (vitaminas, ômega-3, antioxidantes)?

Letícia: Quando o paciente tem a oportunidade de realizar o teste genético, o manejo nutricional fica muito mais assertivo, poupando tempo e saúde. De acordo com os polimorfismos identificados no teste, podemos tratar e, principalmente, prevenir deficiências nutricionais de forma extremamente individualizada.

Por exemplo, se eu sei que meu paciente possui polimorfismos de risco no MTHFR (gene que codifica a enzima responsável pela metabolização de vitaminas do complexo B, especialmente a B9), na minha conduta precisarei reforçar alimentos fonte desse nutriente, pedir exames periódicos da dosagem sérica de ácido fólico e homocisteína, além de suplementar metilfolato, caso haja necessidade. Nesse caso, o acompanhamento clínico precisaria ser mais prolongado.

E esse raciocínio se estende para todos os outros polimorfismos analisados no teste genético, que estão envolvidos com a parte nutricional, em especial para a suplementação.

2 – Quais características inferidas pelo teste genético são avaliadas para a suplementação?

Letícia: Eu avalio principalmente genes e polimorfismos associados, de alguma maneira, à absorção e metabolização de nutrientes, como vitaminas e minerais – além de compostos que participem das fases de detoxificação e aporte antioxidante, como a potencial necessidade aumentada de ômega-3.

Assim, se identificamos alguma falha metabólica relacionada a esses processos, já podemos realizar a suplementação preventiva que muitas vezes otimiza a performance tanto física quanto mental, com o paciente relatando significativa melhora global.

3 – Quais elementos são possíveis de serem prescritos ou suplementados a partir dos testes genéticos?

Letícia: Na verdade, qualquer parte do metabolismo que seja afetado por um polimorfismo genético será beneficiada com uma suplementação adequada, principalmente se houver uma deficiência nutricional já instalada.

Mas citando alguns casos mais recorrentes de suplementação de acordo com o gene: a vitamina D e o gene VDR; o ômega 3 e o gene FADS1; a suplementação de cafeína para metabolizadores rápidos visando otimização de performance na nutrição esportiva; o uso do 5-Hidroxitriptofano (5HTP) para casos de polimorfismo no gene COMT quando há transtornos de ansiedade e compulsão alimentar; etc…

Acredito que a conduta vai muito da experiência do profissional em estudar bem o painel genético completo e traçar estratégias individualizadas para cada paciente com suplementações que realmente façam sentido na abordagem proposta.

4 – Quais cuidados se deve tomar quando se suplementa algum elemento de acordo com o teste genético?

Letícia: É importante checar intolerâncias e alergias, além de certificar-se da qualidade dos produtos prescritos e verificar a compatibilidade dos compostos (incluindo a posologia recomendada) se a suplementação for feita com formulações manipuladas.

Mas o principal é nunca perder de foco na real necessidade da suplementação: não faz sentido recomendar suplementos quando não há uma deficiência instaurada ou se não agregar benefícios consideráveis à qualidade de vida do paciente.

Mas através da análise do painel genético é que conseguimos planejar essa suplementação de forma a não causar nenhum dano, como o acúmulo de certos nutrientes, o que pode ser tóxico.

5 – Além do teste genético, quais são os outros pontos a serem avaliados para uma prescrição/suplementação mais assertiva?

Letícia: Os dois pontos principais antes de qualquer suplementação é checar as queixas e sintomas clínicos, e solicitar exames bioquímicos porque assim encontramos as deficiências ou pontos em que a suplementação seria benéfica. Ao cruzar todas essas informações com os resultados do painel genético, montamos um verdadeiro quebra-cabeça da saúde do paciente para só então combinar as suplementações de acordo com a estratégia de tratamento.

Muitas vezes as pessoas acham que é só pegar os exames de sangue e sair suplementado elementos cujos níveis estão baixos. Mas não é bem assim que funciona. Primeiro precisamos checar quais suplementos são compatíveis entre si e se o organismo do paciente está apto a absorver e metabolizar toda essa carga nutricional adicional.

Por isso toda e qualquer suplementação deve ser acompanhada de uma mudança substancial no estilo de vida e prescrita por um profissional qualificado para realmente ser eficaz, trazendo à tona os objetivos desejados.

Letícia Falquetti – CRN3: 53265
Nutricionista com mestrado em patologia experimental pela USP
Experiência Clínica em dietoterápico adulto e fitoterapia, trabalhando principalmente com antioxidantes e câncer de cólon
Cursa especialização em genética com ênfase em prescrição usando painéis genéticos

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