A endometriose é uma doença muito frequente entre as mulheres. Apesar de bastante conhecida e estudada, diversos tratamentos são propostos como forma de amenizar seus sintomas e buscar sua remissão sem uma abordagem cirúrgica.

Sabendo da importância que a nutrição tem para o tratamento de mulheres com endometriose, a nutrigenética tem se tornado uma ferramenta importante na orientação de condutas dietoterápicas e de suplementação alimentar.

Para explicar mais sobre esse tema super relevante no universo feminino, trouxemos um texto muito informativo da nutri Sâmia Keller Luccas, especialista em saúde da mulher e em nutrigenética aplicada à endometriose. Confira!

O que é Endometriose? 

A endometriose é uma doença ginecológica considerada bastante comum, atingindo cerca de 5 a 15% das mulheres em idade reprodutiva. Estima-se que aproximadamente 70 milhões de mulheres no mundo sejam diagnosticadas com endometriose – isso sem levar em consideração as assintomáticas.

Ela acontece quando as células que revestem o útero (endométrio) se desenvolvem fora dele, principalmente no intestino, ovários, bexiga, mas também em outros órgãos. Como consequência, as mulheres acometidas por esse distúrbio podem apresentar dores intensas e até infertilidade. 

Por se tratar de uma doença inflamatória, com possíveis causas autoimunes e com importante impacto emocional, é essencial que o tratamento seja integrado, abrangendo aspectos hormonais, psicológicos e alimentares.

O teste genético no atendimento clínico de pacientes com Endometriose

Quando uma paciente procura pelo nutricionista com o diagnóstico de endometriose, é comum que o profissional oriente sobre a necessidade de uma série de mudanças alimentares e de estilo de vida. No entanto, a conduta se torna muito mais assertiva se a paciente for aconselhada a fazer uma análise dos seus genes.

A razão de se requerer o teste genético é que com ele pode-se identificar riscos associados a genes responsáveis pela inflamação, pela resistência à insulina, à necessidade de antioxidantes, ao metabolismo de certas vitaminas e nutrientes.

Essas informações impactam na conduta nutricional que é mais ou menos restritiva para certos alimentos, assim como no tratamento hormonal prescrito convencionalmente pelos médicos.

Quando as minhas pacientes realizam o teste genético elas me ajudam a deixar a conduta nutricional muito mais individualizada e, consequentemente, temos mais resultados, seja para controlar dores, seja para melhorar o quadro clínico e “tentar” uma remissão, assim como para aumentar a fertilidade, caso a paciente seja uma tentante.

Genes, Endometriose e a prática clínica

Vários genes são relevantes para a conduta clínica individual nos casos de endometriose, sendo os principais deles:

  • TCF7L2 – relacionado à resistência à insulina e metabolismo das gorduras;
  • COMT – relacionado à dopamina no cérebro; pode contribuir para o aumento dos níveis de ansiedade, maiores chances de síndrome do pânico, dores crônicas e insônia, um quadro bastante clássico nessas mulheres.
  • CLOCK – regulação do ciclo circadiano; nos permite entender como a paciente pode responder a uma dieta fracionada ou a um jejum intermitente, qual a melhor conduta dietética e seus níveis de saciedade, principalmente à noite.
  • VDR – metabolismo da vitamina D e suas necessidades, lembrando que valores mais altos de vitamina D são importantes em mulheres com endometriose.
  • IL6 – mediador pró-inflamatório; junto à análise do gene FADS1, podemos conduzir uma suplementação mais assertiva de ômega-3, e uma redução de ômega 6 na dieta.
  • HLA-0/DQ2.5 e HLA-3/DQ8 – relacionados à alteração na metabolização do glúten; revelam que algumas condutas não precisam ser tão restritivas quanto ao consumo do glúten pela paciente.
  • MTHFR – metabolismo da vitamina B; pode estar relacionado a quadros de infertilidade, parto prematuro – importante associar sua análise com os níveis de homocisteína e ácido fólico nos exames bioquímicos.
  • MCM6 – intolerância à lactose; pode indicar se a paciente apresenta sintomas como intestino preso ou solto demais, urticárias, dermatites e até dores de cabeça crônicas.

Estratégias nutricionais a partir das variações genéticas das pacientes

A partir do conhecimento do perfil genético da paciente é possível levar em conta a exclusão do glúten da dieta, por exemplo, o que favorece uma espécie de remissão do quadro clínico, assim como quando a paciente retira ou reduz o consumo de lácteos. Isso pode ser feito principalmente do período da tarde para a noite, pois gera maior concentração de energia, e maior volumização do endométrio, segundo a Medicina Tradicional Chinesa.

Além disso, esses dois elementos são mal aceitos pelo intestino da paciente com endometriose, pois podem gerar maior acidificação intestinal, alterando o microbioma de maneira negativa, e facilitando a permeabilidade intestinal (leak gut), acarretando maior chance de doenças inflamatórias a longo prazo.

Outro fator importante que pode ser inferido como estratégia após o conhecimento da genética da paciente é a suplementação de compostos bioativos e antioxidantes, além do ômega-3, e a avaliação da necessidade de ingestão de nutrientes específicos para o intestino, como Chlorella, fibras, prebióticos e probióticos. Muitas vezes, a reposição ou suplementação de vitamina D e do complexo B, na forma ativa, ou ácido fólico, normalmente são necessárias.

Adicionalmente, pode-se considerar a restrição de carboidratos, com uma estratégia low carb ou até de jejum intermitente, dependendo da sensibilidade à glicose que a paciente possa apresentar, se ela está ou não acima do peso, se tem indicação de emagrecimento, entre outros fatores.

Resumindo, a genética possibilita estratégias mais assertivas para a conduta dietética de uma maneira bem mais coerente com a individualidade da paciente.

Sâmia Keller Lucas – CRN3: 20382
Nutricionista Clínica & Esportiva e Terapeuta Floral Quântica
Especialista em fisiologia do exercício com aperfeiçoamento em obesidade pela UNIFESP
Coach de emagrecimento
Fundadora do grupo Nutrindo Corpo e Mente